Emir Sader – A crítica crítica (crítica, crítica)

 

(*) Publicado originalmente no Blog da Boitempo.

 

“A teoria, quando penetra nas massas, se torna força material.” (Marx)

 

O intelectual olha a teoria, a encontra magnífica (de fato, varias delas o são), olha para a realidade, a encontra muito menos coerente e atraente, e fica com a teoria, dando as costas para a realidade. Essa é a postura espontânea dos intelectuais, cuja prática está vinculada a atividades acadêmicas, desvinculadas da prática política.

 

A  postura normal de um intelectual é a de interpelar a realidade a partir da teoria, perguntando-se por que a realidade não obedece os cânones da teoria, sendo sempre um desvio em relação a esses cânones. Nada melhor então que o refúgio da teoria, das teorias sobre as teorias, da crítica crítica.

 

Ao invés de interpelar a teoria a partir da realidade, que é a forma dialética de pensar as relações entre teoria e prática. O que a teoria tem para nos ajudar na transformação profunda da realidade?

 

A dissociação dramática entre a teoria e a prática política dentro mesmo do marxismo – que propõe, na sua essência, um vínculo indissolúvel entre elas -, foi abordada por Perry Anderson em sua “Considerações sobre o marxismo ocidental”, publicado pela Boitempo no Brasil.  Como resultado da confluência da ação repressiva dos fascismo europeus e da estalinização dos PCs – ambas agindo na direção de bloquear o debate e a criatividade teórica, surgiu a figura do marxista acadêmico – uma categoria contraditória com o próprio marxismo.

 

Se fragmentavam, por um lado, teorias sem transcendência na realidade, fechadas sobre si mesmas, cada vez mais debatendo suas próprias teorias. Por outro lado, práticas políticas pobres de reflexão teórica e estratégica.

 

As duas figuras se perpetuaram no tempo. Passaram a proliferar intelectuais que se consideram marxistas, mas não tem vínculo partidário algum, que se consideram ou agem como livre atiradores, críticos da esquerda realmente existente. De posse dos livros, se consideram mais marxistas que quaisquer outros, críticos contumazes das práticas partidárias, que se rendem às realidades concretas, “traindo” a teoria.

 

No Brasil eles proliferam na academia e na mídia tradicional, em geral criticando a esquerda, nunca ou quase nunca à direita – uma espécie de condição implícita para ter esses espaços. Publicam livros e tem amplos espaços na mídia, contanto que sejam livros críticos da esquerda, desencantados, pessimistas, céticos- no limite do cinismo. São da turma do Cambalache: tudo é igual, nada é melhor. Se estiver melhor, se esgota sua perspectiva cética, então o uso da teoria por ele é para desmascarar qualquer possibilidade de transformadora da realidade.

 

Para esse tipo de intelectual a teoria não é, ao mesmo tempo, um instrumento de compreensão e de transformação da realidade. Para que fosse assim, eles teriam que ser militantes, membros de partidos, participantes da construção coletiva de processos políticos realmente existentes e não livre atiradores – o que se contrapõe frontalmente à possibilidade de que possam se reivindicar o marxismo.

 

É na América Latina, nos processos pós neoliberais mais avançados – na Bolívia e no Equador -, que essa dicotomia começa a ser superada. O presidente equatoriano Rafael Correa e o vice-presidente boliviana Álvaro Garcia Liñera, são as duas expressões mais claras dessa recomposição entre prática teórica e capacidade de direção política, onde se mostra que a crítica profunda da realidade só pode desembocar em projetos de transformação profunda da realidade, se não quiser permanecer sempre como crítica crítica.

 

Fonte: Blog do Emir 

 

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