Considerações de um intelectual em estado puro

As classes humildes desse país, os excluídos, os despossuídos, são violentos? Existe uma relação entre a frustração de não “possuir bens” e o aumento da violência? Estas perguntas foram dirigidas a Milton Santos pela Revista RUMOS, em entrevista em 1997. Eis a resposta do grande mestre:

 

“Decidimos, de um dia para outro, dizer que os pobres são violentos. Não, não e não! Os pobres, afinal, aprenderam um pouquinho com os ricos e poderosos e, mais recentemente, com as classes médias. A grande violência vem das elites, das classes abastadas, que sempre foram violentas, no Brasil. A sociedade brasileira é toda feita de violência: contra os índios, negros, pobres, humildes, doentes, analfabetos, uma violência tranqüila, codificada, institucionalizada, que quase já faz parte da moral dessas classes, na medida em que se relaciona com a própria forma de sobrexistência dela. Quer dizer, como é que eu fico rico? Como é que mantenho as minhas posições na sociedade? É, sempre, por intermédio de uma violência aceita. Como explicar a violência, cada vez maior, das classes médias? Eu diria que essa manifestação de violência é como um arroto. Sua causa não é a falta de consumo, ao contrário: é o excesso de consumo. A violência, na minha opinião, estás muito mais ligada à decisão tomada, de alto a baixo na sociedade mundial, de trilhar pela competição desenfreada.”

 

(Milton Santos, baiano de Brotas, foi, enquanto vivo – e continua sendo – referência

intelectual para os que pensam)

 

 

 

 

 

 

Agosto de 2007

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